Vista interna do Estádio de Sarriá, em Barcelona, palco do jogo entre Brasil e Itália na Copa de 1982
Copa do Mundo

A Tragédia do Sarriá: Brasil 2 x 3 Itália em 1982

Zico, Sócrates, Falcão e o time mais talentoso desde 1970 precisavam de apenas um empate. Do outro lado, um atacante ressuscitou em 45 minutos e mudou a história das Copas.

Por Redação Guribol · 05 de julho de 1982 · 3 min de leitura
Editado por Victor Sismotto

5 de julho de 1982, Estádio de Sarriá, Barcelona. O Brasil de Telê Santana entrava em campo precisando apenas de um empate para avançar à semifinal da Copa da Espanha. Do outro lado, uma Itália desconfiada, que havia passado da primeira fase com três empates e sem convencer ninguém.

Aquele Brasil era considerado o time mais talentoso desde a geração de 1970: Zico, Sócrates, Falcão, Toninho Cerezo, Éder e Júnior jogavam um futebol que encantava o mundo. Quatro vitórias em quatro jogos, 13 gols marcados. O favoritismo era absoluto.

Detalhe curioso: oficialmente, nem eram quartas de final. A Copa de 1982 tinha uma segunda fase de grupos com três times, e só o primeiro de cada chave ia à semifinal. Na prática, Brasil x Itália era uma quarta de final disfarçada — um mata-mata em que o empate servia para os brasileiros.

Paolo Rossi: o carrasco improvável

Se alguém apostasse antes do jogo em quem decidiria a partida, Paolo Rossi estaria no fim da lista. O atacante voltava de dois anos de suspensão por envolvimento no escândalo de apostas do futebol italiano (o "Totonero") e havia passado em branco nos quatro jogos anteriores. A imprensa italiana pedia sua saída do time. O técnico Enzo Bearzot insistiu.

Aos 5 minutos, Rossi subiu sozinho na área e cabeceou o cruzamento de Cabrini: 1 a 0.

Golaços e punhos cerrados

O Brasil respondeu rápido. Aos 12, Sócrates tabelou com Zico, invadiu a área e fuzilou no canto de Dino Zoff: 1 a 1. O empate classificava — bastava administrar.

Mas aos 25, Cerezo errou um passe atravessado na defesa, Rossi interceptou e bateu firme: 2 a 1 Itália. O erro que o Brasil não podia cometer.

No segundo tempo, aos 68 minutos, Falcão recebeu na entrada da área, ajeitou o corpo e acertou um chute violento: 2 a 2. A imagem dele correndo com os punhos cerrados e as veias do pescoço saltando virou uma das fotos mais icônicas da história das Copas. De novo, o empate classificava o Brasil.

O golpe final

Durou seis minutos. Aos 74, num escanteio mal afastado, a bola sobrou para Rossi dentro da área: 3 a 2 e o hat-trick do homem que estava "morto" para o futebol.

O Brasil ainda teve sua chance: nos minutos finais, Oscar cabeceou forte e Zoff, aos 40 anos, defendeu praticamente em cima da linha. Fim de jogo. O time que encantou o mundo estava eliminado.

"No Brasil, o jogo ganhou nome de tragédia. Para muitos, 5 de julho de 1982 foi o dia em que o futebol-arte morreu."

O legado

A Itália embalou: venceu a Polônia na semifinal e a Alemanha na final, conquistando o tricampeonato. Rossi terminou como artilheiro (6 gols) e melhor jogador da Copa — todos os seus gols saíram nos três últimos jogos.

Já a Seleção de 82 entrou para a história como o melhor time que nunca ganhou uma Copa. Perdeu o troféu, mas ganhou algo raro: ser lembrada com carinho até por quem viu a derrota. O Sarriá virou sinônimo de que, no futebol, o favorito nem sempre vence — mas o futebol bonito nunca é esquecido.

Rossi: da redenção ao topo do mundo

Paolo Rossi não parou no Sarriá. Manteve o taco quente e fez mais três gols nas duas partidas seguintes — um hat-trick contra a Polônia na semifinal e o gol de abertura na final contra a Alemanha Ocidental, vencida por 3 a 1. Fechou o torneio com 6 gols, a Chuteira de Ouro de artilheiro e a Bola de Ouro de melhor jogador da Copa — uma reviravolta completa para um atacante que, dois meses antes, ainda cumpria suspensão por envolvimento no escândalo de apostas do futebol italiano. Depois de 1982, seguiu carreira na Juventus, onde ganhou a Copa dos Campeões da Europa e mais títulos italianos, encerrando a carreira em 1987 pelo Hellas Verona.

Zico, Sócrates e Falcão: os craques que nunca ganharam

Para o trio brasileiro, o Sarriá acabou virando o início do fim de uma geração. Zico, Sócrates e Falcão tiveram uma última chance na Copa de 1986, no México — eliminados nos pênaltis pela França nas quartas de final, com Sócrates entre os que desperdiçaram cobrança. Os três encerraram a carreira na Seleção sem o título que o talento parecia garantir, e entraram para uma lista de ídolos do futebol mundial — ao lado de nomes como Michel Platini e Johan Cruyff — que também nunca ergueu a taça. É essa combinação de talento raro e taça ausente que mantém viva, mais de quatro décadas depois, a memória do time de 1982 como o mais querido entre os que perderam.

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