A Taça Jules Rimet, troféu conquistado em definitivo pelo Brasil após o tricampeonato de 1970
Copa do Mundo

A final quase perfeita: Brasil 4 x 1 Itália em 1970

Pelé, Gérson, Jairzinho e um gol do capitão Carlos Alberto até hoje eleito o mais bonito das Copas. A final que confirmou o tricampeonato e a Taça Jules Rimet para sempre.

Por Redação Guribol · 21 de junho de 1970 · 4 min de leitura
Editado por Victor Sismotto

Quatro dias depois do Jogo do Século naquele mesmo Azteca, a Itália voltou ao estádio. Desta vez, para disputar a final contra o Brasil.

Do outro lado, o time mais talentoso que o futebol já viu reunido em campo de uma vez: Pelé, Rivelino, Gérson, Tostão, Jairzinho e Carlos Alberto. Uma geração dourada que chegou na Copa de 1970 com a missão de ganhar o tricampeonato — e com o talento para fazer isso de um jeito que ninguém havia visto antes.

O resultado foi 4 a 1. Mas o placar não conta tudo.

Uma campanha 100% até a final

O Brasil chegou à decisão sem perder um jogo sequer — e sem sequer precisar da prorrogação, diferença que o separou da Itália, ainda se recuperando fisicamente do Jogo do Século contra a Alemanha Ocidental quatro dias antes. Na fase de grupos, a Seleção goleou a Tchecoslováquia por 4 a 1, venceu a Inglaterra campeã mundial por 1 a 0 e superou a Romênia por 3 a 2. Nas quartas, 4 a 2 sobre o Peru, com dois gols de Tostão. Na semifinal, 3 a 1 sobre o Uruguai, algoz do Brasil na final de 1950. Foram seis vitórias em seis jogos e 19 gols marcados — média de mais de três por partida — antes mesmo de pisar no Azteca para a decisão.

O primeiro tempo: Pelé e a equalização italiana

Pelé abriu o placar logo aos 18 minutos. Um cabeceio perfeito, poderoso, no ângulo — o tipo de gol que o maior jogador do mundo marca quando está no seu melhor.

Mas a Itália, mesmo machucada pelo jogo anterior, ainda tinha qualidade. Boninsegna empatou aos 37 minutos, aproveitando um erro brasileiro. O intervalo chegou com 1 a 1. Nos vestiários, nada de pânico. Aquele Brasil não era o tipo de time que perdia a cabeça.

O segundo tempo: aula de futebol

A partir do segundo tempo, o Brasil transformou a final numa demonstração.

Gérson virou o jogo aos 21 minutos da segunda etapa com um chute de fora da área que entrou no canto sem chances para o goleiro. Dois minutos depois, Jairzinho recebeu um passe de Pelé e ampliou para 3 a 1 — tornando-se o único jogador da história a marcar gols em todas as partidas de uma mesma Copa do Mundo.

O gol mais bonito da história

Aos 86 minutos, com o placar já definido em 3 a 1, o Brasil fez uma jogada que resumia tudo o que aquele time representava.

A bola passou por oito jogadores brasileiros em sequência, com toque e velocidade, deslocando toda a defesa italiana. Pelé recebeu na intermediária, prendeu a bola, olhou para o lado e — ao invés de chutar — esperou pacientemente o momento certo para dar o passe.

Carlos Alberto, o capitão, que havia começado a jogada lá atrás, vinha correndo em velocidade máxima pela direita sem parar desde o início do contra-ataque. Pelé deu o passe milimétrico no momento exato. Carlos Alberto não precisou nem ajustar o passo — acertou a bola de primeira com o máximo de força, no canto do gol, antes que qualquer italiano pudesse reagir.

"4 a 1. A FIFA mais tarde escolheu aquele gol como um dos mais bonitos de toda a história das Copas. Muitos consideram o mais bonito de todos."

O fim e a taça definitiva

Com a vitória, o Brasil conquistou o tricampeonato mundial — cumprindo a regra que dizia que a Taça Jules Rimet pertenceria definitivamente ao primeiro país a vencer três Copas do Mundo. O troféu foi para o Brasil para ficar para sempre.

O time de 1970 é até hoje citado como o melhor selecionado da história do futebol mundial. Aquela tarde no Azteca não foi apenas uma final de Copa. Foi uma afirmação de que o futebol poderia ser arte.

O que veio depois

Para Pelé, o tricampeonato fechou o capítulo de Copas do Mundo. Ele jogou mais um ano pela Seleção — a despedida oficial veio em julho de 1971, num amistoso contra a Áustria no Morumbi — e nunca mais disputou um Mundial, guardando a marca de único jogador tricampeão em campo (1958, 1962 e 1970). Carlos Alberto Torres, autor do gol mais bonito da história das Copas, seguiu como referência de lateral-direito e capitão até o fim da década. Jairzinho, artilheiro em todas as partidas daquela campanha, viria a defender a Seleção ainda na Copa de 1974, na Alemanha.

A Taça Jules Rimet, conquistada em definitivo pela regra do tricampeonato, ficou exposta na sede da CBF, no Rio de Janeiro, até ser roubada em 1983 — um crime nunca solucionado, com a principal hipótese sendo a de que o troféu foi derretido. Meio século depois, o time de 1970 segue sendo o parâmetro de comparação toda vez que a discussão gira em torno da melhor seleção já montada, e o gol de Carlos Alberto continua sendo eleito, com frequência, o mais bonito da história dos Mundiais.

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