Vista panorâmica do interior do Estádio Azteca, na Cidade do México, palco do Jogo do Século em 1970
Copa do Mundo

O Jogo do Século: Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental na semifinal de 1970

Cinco gols em 30 minutos de prorrogação, Beckenbauer em campo com a clavícula fraturada e uma placa até hoje na frente do Azteca. A semifinal de 1970 é maior que o placar.

Por Redação Guribol · 17 de junho de 1970 · 4 min de leitura
Editado por Victor Sismotto

Tem jogos que você assiste e esquece na semana seguinte. E tem jogos que ganham placa na frente do estádio onde foram disputados. Esse ganhou a placa.

A semifinal entre Itália e Alemanha Ocidental em 1970 ficou conhecida para sempre como "O Jogo do Século" — um título que parece exagerado até você assistir. Depois, faz sentido.

O caminho até o Azteca

Nenhuma das duas seleções chegou àquela tarde por acaso. A Itália havia passado pela fase de grupos com um triunfo simples sobre a Suécia (1 a 0) e dois empates sem gols, contra Uruguai e Israel — futebol pragmático, sem brilho, mas suficiente para avançar. Nas quartas, subiu de nível: goleou o México, anfitrião do torneio, por 4 a 1, ainda em Guadalajara. A Alemanha Ocidental, por sua vez, vinha de uma fase de grupos mais ofensiva e havia eliminado a Inglaterra, campeã mundial em exercício, também nas quartas — uma virada de 3 a 2 depois de perder por 2 a 0. Duas seleções em ritmo de crescimento se encontravam com a vaga na final em jogo.

O primeiro tempo: uma mentira bem contada

O jogo começou na defensiva. A Itália de 1970 era conhecida pelo catenaccio — um sistema ultradefensivo que sufocava adversários e fazia a torcida italiana dormir tranquila e entediada. Nada surpreendente, portanto, que o primeiro tempo parecesse mais uma disputa de xadrez do que futebol.

Boninsegna abriu o placar para a Itália e o jogo foi exatamente o que parecia que seria: fechado, tenso, chato para quem gostava de gols. A Itália foi para o intervalo vencendo por 1 a 0 e, ao que tudo indicava, ia passar a segunda etapa inteira caçando o tempo para acabar. Indicava.

O homem com o braço amarrado

Aos 25 minutos do segundo tempo, Franz Beckenbauer — o Kaiser, o líder alemão, o melhor jogador daquele time — sofreu uma falta e caiu de um jeito que não presta. Clavícula fraturada.

O problema: a Alemanha já havia feito todas as substituições permitidas. Beckenbauer ou saía e deixava o time com dez jogadores — o que naquela época era praticamente uma sentença de morte —, ou ficava em campo machucado. Ele ficou.

O braço foi imobilizado com uma tipoia improvisada, amarrado junto ao corpo. E Beckenbauer continuou jogando com a clavícula fraturada, disputando os lances, se movendo pelo campo, recusando-se a ser apenas um fantasma com um braço preso. O placar ainda era 1 a 0 para a Itália quando os 90 minutos normais se encerraram.

A prorrogação: cinco gols em trinta minutos

O que aconteceu na prorrogação não tem explicação racional. Em 30 minutos de acréscimo, os dois times marcaram cinco gols — algo que nunca tinha acontecido antes e nunca aconteceu de novo em uma Copa do Mundo.

  1. Schnellinger empatou para a Alemanha quase no fim do tempo normal (1–1)
  2. Müller virou para a Alemanha na prorrogação (2–1)
  3. Burgnich empatou para a Itália (2–2)
  4. Riva virou para a Itália (3–2)
  5. Müller empatou de novo (3–3)
  6. Rivera fez o gol decisivo para a Itália (4–3)

Em dado momento da prorrogação, o placar mudou quatro vezes em menos de vinte minutos. A torcida no Azteca não sabia mais se gritava ou chorava.

A Itália venceu por 4 a 3. Beckenbauer jogou toda a prorrogação com o braço amarrado. A placa na frente do Azteca diz simplesmente: "Aqui aconteceu O Jogo do Século."

"Aqui aconteceu O Jogo do Século."

— Placa no Estádio Azteca, Cidade do México

O que veio depois

O desgaste cobrou o preço quatro dias depois: a Itália, ainda se recuperando fisicamente e emocionalmente da prorrogação mais dramática que o torneio já tinha visto, perdeu a final para o Brasil por 4 a 1. Beckenbauer, que terminou aquela semifinal com o braço amarrado ao corpo, seguiu jogando pela Alemanha até 1977 e se tornou uma das figuras centrais do futebol mundial nos anos seguintes: foi campeão da Eurocopa de 1972, ergueu três taças seguidas da Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique e, em 1974, levantou a Copa do Mundo como capitão, em casa. Depois de pendurar as chuteiras, virou técnico da seleção alemã e chegou a duas finais de Copa — perdeu em 1986 para a Argentina e venceu em 1990, também contra os argentinos, por 1 a 0. Com isso, tornou-se um dos únicos homens da história a erguer a Copa do Mundo como jogador e como técnico.

Gerd Müller, autor de dois dos sete gols da noite, terminou aquela Copa como artilheiro do torneio e seguiria sendo, por décadas, o maior goleador da história das Copas até Ronaldo Nazário superá-lo nos anos 2000. Para os italianos, o Jogo do Século entrou para o imaginário nacional como a prova de que mesmo o catenaccio mais fechado podia produzir uma das noites mais dramáticas do esporte — um contraste que ajuda a explicar por que, mais de meio século depois, a partida ainda é lembrada como uma referência de intensidade em qualquer discussão sobre o melhor jogo já disputado numa Copa do Mundo.

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