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Estatísticas

Os empates do Brasileirão não estão em alta — o que 16 anos de dados mostram

É comum ouvir que o Brasileirão empata mais do que antigamente. Levantamos o número de jogos empatados em cada uma das 16 temporadas desde 2010, e a resposta é mais chata do que a pergunta: não há tendência de alta nenhuma.

Por Redação Guribol · 27 de setembro de 2026 · 4 min de leitura
Editado por Victor Sismotto

"Esse campeonato empata demais" é uma das reclamações mais repetidas sobre o Brasileirão — em roda de bar, em comentário de transmissão, na seção de comentários de qualquer matéria sobre a tabela. A pergunta por trás da reclamação é simples de fazer e, aparentemente, ninguém tinha respondido com número: será que o Brasileirão de fato empata mais hoje do que empatava há dez, quinze anos?

Levantamos o número de jogos que terminaram empatados em cada uma das 16 temporadas do Brasileirão Série A entre 2010 e 2025, mais o pedaço já disputado de 2026. A resposta é mais chata do que a pergunta sugere: não existe tendência de alta. A taxa de empates oscila em torno de 27% desde 2010, sem direção clara — e a temporada com mais empates de toda a série é, ironicamente, a primeira: 2010.

O método

Cada ponto do gráfico abaixo vem da classificação final oficial daquela temporada: somamos a coluna "E" (empates) dos 20 times e dividimos por 2 — cada jogo empatado aparece uma vez na coluna de cada um dos dois times, então a soma bruta é sempre o dobro do número real de jogos. É a mesma lógica que já usamos para conferir a tabela do Brasileirão a cada rodada, aplicada 16 vezes seguidas.

A fonte primária foi a classificação final de cada edição na Wikipédia. Como o CLAUDE.md deste site já desconfia da Wikipédia por bom motivo — ela erra com frequência em placar e dado corrente —, cruzamos a leitura contra uma segunda fonte independente em três anos-amostra espalhados pela série (2010, 2018 e 2023): em todos os três, os 20 valores da coluna de empates bateram exatamente, time a time, contra o ogol.com.br ou o Superesportes. Diferente de um placar de ontem, a classificação final de uma temporada encerrada há anos é um dado estável, documentado por múltiplas fontes independentes — o risco de erro é bem menor do que o de uma tabela corrente em atualização.

Empates por temporada, 2010–2025

31.1%201027.6%201127.6%201228.4%201324.2%201423.9%201524.8%201627.1%201728.9%201825.8%201928.4%202029.7%202128.4%202225.8%202326.6%202426.1%2025
  • 2010: 31.1%
  • 2011: 27.6%
  • 2012: 27.6%
  • 2013: 28.4%
  • 2014: 24.2%
  • 2015: 23.9%
  • 2016: 24.8%
  • 2017: 27.1%
  • 2018: 28.9%
  • 2019: 25.8%
  • 2020: 28.4%
  • 2021: 29.7%
  • 2022: 28.4%
  • 2023: 25.8%
  • 2024: 26.6%
  • 2025: 26.1%
Linha pontilhada: média da série (27,2%).

A resposta curta: não há tendência

Passando uma reta de tendência pelos 16 pontos da série, a inclinação é de -0,06 ponto percentual por ano — estatisticamente indistinguível de zero ao longo de 16 temporadas. Não é uma alta pequena disfarçada de estabilidade: é ruído, o tipo de variação que qualquer competição tem de um ano para o outro sem que nada estrutural tenha mudado.

Outra forma de olhar para o mesmo dado, sem estatística nenhuma: a média de empates nas primeiras oito temporadas da série (2010 a 2017) foi de 26,8%. Nas oito seguintes (2018 a 2025), foi de 27,5%. A diferença é de sete décimos de ponto percentual — menor do que a variação normal de um ano isolado para o outro. Se o Brasileirão realmente estivesse empatando mais a cada ano, a segunda metade da série precisaria estar visivelmente acima da primeira. Não está.

Uma hipótese específica merece o próprio teste: o VAR, que chegou ao Brasileirão em 2019, é frequentemente apontado como responsável por jogos mais truncados, com times evitando risco depois de qualquer revisão de lance. Comparando a era pré-VAR (2010 a 2018, 27,1% de empates) com a era pós-VAR (2019 a 2025, 27,3%), a diferença é de dois décimos de ponto percentual — ruído, não efeito. Se o árbitro de vídeo mudou alguma coisa no resultado das partidas, não foi a frequência de empate.

Os extremos da série

  • Mais empates: 2010, com 118 jogos empatados (31,1%) — a própria primeira temporada da série, o que por si só já derruba a ideia de uma escalada ao longo do tempo.
  • Menos empates: 2015, com 91 jogos empatados (23,9%) — bem no meio do período analisado, não no início nem no fim.
  • 2021 é a segunda temporada com mais empates (29,7%), seguida de perto por 2018 (28,9%) — os dois anos ficam espalhados pela série, não concentrados numa ponta.

A nota sobre 2016

2016 é a única temporada da série com menos de 380 jogos disputados (379). A partida entre Atlético-MG e Chapecoense pela última rodada não foi disputada — resultado do acidente aéreo que matou 71 pessoas, entre elas 19 jogadores da Chapecoense, em novembro daquele ano. A CBF declarou W.O. duplo para as duas equipes. O jogo não entra nem como vitória, nem como empate, nem como derrota — só não aconteceu.

Onde 2026 se encaixa

Até a rodada mais recente coberta neste site, o Brasileirão 2026 tem 77 jogos empatados em 277 disputados — 27,8%. É um número muito próximo da média histórica da série inteira (27,2%) e longe de ser um recorde: só seis das 16 temporadas anteriores (2010, 2013, 2018, 2020, 2021 e 2022) tiveram taxa de empate maior do que a que 2026 está registrando até aqui. Quem acha que "esse ano está empatando muito" está vendo o campeonato de perto demais para notar que ele sempre foi assim.

O que isso não significa

Dezesseis pontos de dados é pouco para qualquer afirmação estatística forte — não dá para provar que não existe tendência nenhuma, só que, se existir, ela é pequena demais para aparecer com clareza numa janela de 16 anos. Também não olhamos aqui para o motivo de cada empate individual (jogo truncado, time defendendo vantagem, arbitragem, gramado) — isso é outra pergunta, e outro estudo. O que dá para dizer com esse levantamento na mesa é isto: a sensação de que os empates estão em alta não encontra apoio nos números desde 2010.

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