
O fator casa no Brasileirão: quanto jogar em casa realmente vale, desde 2006
Cruzamos vitórias, empates e aproveitamento de mandante e visitante em cada uma das 21 temporadas da Série A desde 2006. O time da casa venceu, em média, quase metade dos jogos e teve quase o dobro do aproveitamento do visitante — mas essa vantagem vem encolhendo.
Em 21 temporadas de pontos corridos, o time da casa venceu praticamente a metade dos jogos do Brasileirão — e, quando não venceu, teve muito mais chance de empatar do que de perder. Cruzamos vitórias, empates e aproveitamento de mandante e visitante em cada uma das edições da Série A desde 2006, e o resultado confirma o que todo torcedor já sente no estômago: jogar em casa vale muito, embora um pouco menos hoje do que valia quinze anos atrás.
Na média da série inteira, o mandante venceu 49,0% dos jogos, contra 24,8% de vitórias do visitante — os 26,2% restantes foram empate. Em aproveitamento de pontos, a diferença é ainda mais clara: o time da casa fica, em média, com 24,8 pontos percentuais de aproveitamento a mais do que o visitante no mesmo jogo, quase o dobro considerando toda a série.
O método
A base de jogo a jogo vem de um dataset público compilado a partir das súmulas da CBF e do ge.globo (repositório "adaoduque/Brasileirao_Dataset" no GitHub), processado por outro projeto público de análise ("FelipeSantanaJ/futebol-brasileiro-analises") numa tabela ano a ano com vitórias, empates e aproveitamento de mandante e visitante — o que poupa a raspagem de milhares de partidas individuais pra um levantamento que é, por natureza, histórico e estável. Cruzamos essa tabela contra o ogol.com.br em três temporadas espalhadas pela série (2006, 2015 e 2023): os percentuais de vitória em casa, empate e vitória do visitante bateram nos três anos, com diferença só de arredondamento.
2025 e 2026 ainda não estão nesse dataset público — pra esses dois anos, os números vêm direto do ogol.com.br. 2026 é parcial: cobre as 278 partidas já disputadas até 3 de outubro. 'Aproveitamento' é a conta de sempre, pontos conquistados dividido pelos pontos possíveis (3 por jogo), em percentual — separamos esse número por mandante e visitante em cada temporada e olhamos pra diferença entre os dois.
Quantas vitórias o mando de campo garante
- 2006: 50.3%
- 2007: 50.5%
- 2008: 54.7%
- 2009: 51.3%
- 2010: 47.1%
- 2011: 48.4%
- 2012: 48.2%
- 2013: 48.4%
- 2014: 51.8%
- 2015: 52.6%
- 2016: 53.3%
- 2017: 44%
- 2018: 53.2%
- 2019: 48.4%
- 2020: 45%
- 2021: 45.8%
- 2022: 44.2%
- 2023: 46.8%
- 2024: 47.4%
- 2025: 50.3%
- 2026: 46.8%
A vantagem de jogar em casa não desapareceu, mas encolheu um pouco. Nas dez primeiras temporadas da série (2006 a 2015), o mandante venceu, em média, 50,3% dos jogos. Nas dez temporadas seguintes já encerradas (2016 a 2025), essa média cai pra 47,8% — uma queda de 2,5 pontos percentuais. Não é uma queda brusca, mas vai na direção que a crônica esportiva já vem notando: o visitante ganhando terreno. O ano de maior vantagem do mandante foi 2008 (54,7% de vitórias em casa); o de menor foi 2017 (44,0%) — justamente a temporada com a maior taxa de vitória do visitante de toda a série (29,0%).
O aproveitamento: quase o dobro de pontos jogando em casa
- 2006: 26.1 p.p.
- 2007: 24.7 p.p.
- 2008: 34.7 p.p.
- 2009: 29.5 p.p.
- 2010: 25.3 p.p.
- 2011: 24.5 p.p.
- 2012: 24 p.p.
- 2013: 25.3 p.p.
- 2014: 27.9 p.p.
- 2015: 29.2 p.p.
- 2016: 31.4 p.p.
- 2017: 15 p.p.
- 2018: 35.3 p.p.
- 2019: 22.6 p.p.
- 2020: 18.4 p.p.
- 2021: 21.3 p.p.
- 2022: 16.8 p.p.
- 2023: 19.5 p.p.
- 2024: 21.3 p.p.
- 2025: 26.6 p.p.
- 2026: 21.2 p.p.
A maior diferença de toda a série foi em 2018: o mandante teve 62,8% de aproveitamento contra 27,5% do visitante, uma diferença de 35,3 pontos percentuais — o time da casa, naquele ano, aproveitou mais do que o dobro dos pontos do visitante. A menor diferença foi em 2017 (15,0 pontos), o mesmo ano com a menor vantagem em vitórias: um ano fora da curva nos dois critérios.
A pista dos jogos sem torcida
2020 foi a única temporada inteira disputada sem público nos estádios, por causa da pandemia. A diferença de aproveitamento daquele ano (18,4 pontos percentuais) ficou abaixo da média da série (24,8) — consistente com a ideia de que a torcida nas arquibancadas é parte do que empurra o aproveitamento do mandante pra cima. Mas a mesma lógica não explica 2017, que teve a menor diferença de toda a série (15,0 pontos) com os estádios cheios como em qualquer outro ano — então, se o público realmente pesa, não é o único fator, e talvez nem o principal.
| Temporada | Vitória casa | Empate | Vitória visitante | Aproveitamento casa | Aproveitamento visitante |
|---|---|---|---|---|---|
| 2006 | 50,3% | 25,5% | 24,2% | 58,8% | 32,7% |
| 2007 | 50,5% | 23,7% | 25,8% | 58,4% | 33,7% |
| 2008 | 54,7% | 25,3% | 20,0% | 63,2% | 28,4% |
| 2009 | 51,3% | 26,8% | 21,8% | 60,3% | 30,8% |
| 2010 | 47,1% | 31,1% | 21,8% | 57,5% | 32,2% |
| 2011 | 48,4% | 27,6% | 24,0% | 57,6% | 33,2% |
| 2012 | 48,2% | 27,6% | 24,2% | 57,4% | 33,4% |
| 2013 | 48,4% | 28,4% | 23,2% | 57,9% | 32,6% |
| 2014 | 51,8% | 24,2% | 24,0% | 59,9% | 32,0% |
| 2015 | 52,6% | 24,0% | 23,4% | 60,6% | 31,4% |
| 2016 | 53,3% | 24,8% | 21,9% | 61,6% | 30,2% |
| 2017 | 44,0% | 27,1% | 29,0% | 53,0% | 38,0% |
| 2018 | 53,2% | 29,0% | 17,9% | 62,8% | 27,5% |
| 2019 | 48,4% | 25,8% | 25,8% | 57,0% | 34,4% |
| 2020 | 45,0% | 28,4% | 26,6% | 54,5% | 36,1% |
| 2021 | 45,8% | 29,7% | 24,5% | 55,7% | 34,4% |
| 2022 | 44,2% | 28,4% | 27,4% | 53,7% | 36,8% |
| 2023 | 46,8% | 25,8% | 27,4% | 55,4% | 36,0% |
| 2024 | 47,4% | 26,6% | 26,1% | 56,2% | 34,9% |
| 2025 | 50,3% | 26,1% | 23,7% | 59,0% | 32,4% |
| 2026* | 46,8% | 27,7% | 25,5% | 56,0% | 34,8% |
O que isso não significa
Esse levantamento é agregado da liga inteira, não por time: alguns clubes têm fator casa muito mais forte ou mais fraco do que a média (há relatos recentes de times com campanha melhor como visitante do que como mandante numa mesma temporada) — isso é outra pergunta, pra outro estudo. Também não controla a força do adversário enfrentado em casa e fora em cada temporada, nem separa o efeito específico de público, gramado, viagem ou arbitragem — só mede o resultado final, sem apontar a causa. E 2026 está incompleto: os números daquele ano cobrem só as partidas já disputadas até 3 de outubro, não a temporada fechada.
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