
Os gols do Brasileirão estão em queda — o que 20 anos de dados mostram desde 2006
Levantamos o total de gols de cada uma das 20 temporadas do Brasileirão desde 2006, quando o campeonato estabilizou em 20 clubes. Diferente do que já vimos com os empates, aqui existe uma queda real: o campeonato de hoje tem, em média, menos gols por jogo do que o de quinze anos atrás.
Depois de levantar os empates do Brasileirão e não achar tendência nenhuma, a pergunta natural é a irmã dela: e os gols, aumentaram ou diminuíram? Times "jogam mais retrancados hoje em dia" é outra reclamação clássica de arquibancada — a versão positiva da queixa dos empates. Desta vez, diferente da vez passada, os números confirmam a impressão: há uma queda real na quantidade de gols por jogo do Brasileirão desde 2006.
Levantamos o total de gols marcados em cada uma das 20 temporadas do Brasileirão entre 2006 e 2025 — o mesmo recorte usado no levantamento de ataque e defesa acumulados que publicamos nesta seção, porque 2006 foi a primeira edição com o formato atual de 20 clubes e 38 rodadas. Comparar com os anos de 22 ou 24 times (2003 a 2005) inflaria o total sem dizer nada sobre o ritmo do jogo.
O método
Os dados vêm do mesmo levantamento temporada a temporada já usado no ranking acumulado de pontos: a classificação final de cada ano na Wikipédia, já conferida artigo por artigo. Somamos os gols pró ("GP") dos 20 clubes de cada temporada — cada gol de uma partida é contado uma única vez, atribuído a quem marcou, então a soma bate exatamente com o total de gols do campeonato. Dividimos pelo número de jogos da temporada (sempre 380, já que são 20 times, 38 rodadas, dois times por jogo) para chegar à média de gols por jogo.
Gols por temporada, 2006-2025
- 2006: 2.71
- 2007: 2.76
- 2008: 2.72
- 2009: 2.88
- 2010: 2.57
- 2011: 2.68
- 2012: 2.47
- 2013: 2.46
- 2014: 2.26
- 2015: 2.36
- 2016: 2.4
- 2017: 2.43
- 2018: 2.18
- 2019: 2.31
- 2020: 2.48
- 2021: 2.22
- 2022: 2.38
- 2023: 2.49
- 2024: 2.44
- 2025: 2.52
| Temporada | Total de gols | Gols por jogo |
|---|---|---|
| 2006 | 1.030 | 2,71 |
| 2007 | 1.047 | 2,76 |
| 2008 | 1.035 | 2,72 |
| 2009 | 1.094 | 2,88 |
| 2010 | 978 | 2,57 |
| 2011 | 1.017 | 2,68 |
| 2012 | 940 | 2,47 |
| 2013 | 936 | 2,46 |
| 2014 | 860 | 2,26 |
| 2015 | 897 | 2,36 |
| 2016 | 912 | 2,40 |
| 2017 | 923 | 2,43 |
| 2018 | 827 | 2,18 |
| 2019 | 876 | 2,31 |
| 2020 | 944 | 2,48 |
| 2021 | 842 | 2,22 |
| 2022 | 905 | 2,38 |
| 2023 | 946 | 2,49 |
| 2024 | 928 | 2,44 |
| 2025 | 959 | 2,52 |
A resposta: uma queda real
Passando uma reta de tendência pelos 20 pontos da série, a inclinação é de -0,02 gol por jogo a cada ano — pequena isoladamente, mas que se acumula ao longo de duas décadas. A média das dez primeiras temporadas (2006 a 2015) foi de 2,59 gols por jogo; a média das dez mais recentes (2016 a 2025) caiu para 2,39. É uma diferença de dois décimos de gol por jogo, o equivalente a cerca de 76 gols a menos por temporada inteira só de uma década para a outra — bem diferente do resultado que encontramos com os empates, onde a mesma comparação não mostrou quase nenhuma diferença.
A diferença fica ainda mais evidente nas pontas da série: a média dos cinco primeiros anos (2006 a 2010) foi de 2,73 gols por jogo; a dos cinco mais recentes (2021 a 2025), 2,41. São mais de três décimos de gol de diferença — maior do que a comparação entre as duas décadas completas, o que sugere que o começo e o fim da série pesam mais nessa queda do que os anos do meio.
Maior salto e maior queda de um ano para o outro
Olhando ano a ano, a maior queda de uma temporada para a seguinte foi de 2009 para 2010: de 2,88 para 2,57 gols por jogo, 0,31 a menos. Já o maior salto da série inteira foi de 2019 para 2020, de 2,31 para 2,48 — justamente a temporada disputada sem público nos estádios, por causa da pandemia de Covid-19. Não dá para cravar isso como reversão de tendência: a queda voltou logo na temporada seguinte, com 2021 caindo a 2,22, o segundo número mais baixo de toda a série.
E o VAR?
Aqui a comparação pré e pós-VAR (que chegou ao Brasileirão em 2019) também mostra diferença, ainda que menor que a divisão por década: 2,53 gols por jogo entre 2006 e 2018, contra 2,41 entre 2019 e 2025. É pouco para cravar o árbitro de vídeo como causa — o campeonato já vinha em queda havia anos antes disso —, mas descarta a ideia de que o VAR tenha vindo acompanhado de mais gols, como às vezes se especula por conta de pênaltis mais bem marcados.
Os extremos da série
- Mais gols: 2009, com 2,88 gols por jogo (1.094 no total) — ano de Flamengo campeão com Adriano artilheiro e Fluminense chegando à Libertadores após início ruim.
- Menos gols: 2018, com apenas 2,18 gols por jogo (827 no total) — a mesma temporada, aliás, em que o Palmeiras teve a melhor defesa do período coberto neste levantamento.
- A queda não é uma linha reta: 2020 (2,48) e 2023 (2,49) interrompem a tendência de baixa antes dela continuar.
Onde 2026 se encaixa
Até a rodada mais recente coberta neste site, o Brasileirão 2026 soma 739 gols em 277 jogos disputados — 2,67 gols por jogo. É um número acima da média histórica (2,49) e mais alto que qualquer uma das últimas dez temporadas completas, ficando mais perto do patamar de 2006 a 2009 do que do Brasileirão "truncado" dos últimos anos. Vale a mesma ressalva do estudo de empates: é uma amostra parcial, sujeita a mudar até o fim da temporada — mas, por ora, quem acha que "esse ano está tendo pouco gol" está olhando pro campeonato errado.
O que isso não significa
Vinte pontos de dados também não bastam para provar causa — só descrevem uma tendência. Não investigamos aqui os motivos possíveis para a queda (gramados, preparo físico, esquemas mais defensivos, calendário mais apertado com mais competições disputadas pelos mesmos elencos), só o formato de campeonato, que é o mesmo desde 2006 e por isso permite a comparação direta. O que dá para dizer com este levantamento: ao contrário dos empates, que oscilam sem direção clara desde 2010, os gols do Brasileirão desde 2006 mostram uma queda real, ainda que gradual — e 2026, pelo menos até aqui, está andando na direção contrária dela.
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