
Rogério Ceni: o goleiro de 131 gols que virou sinônimo de São Paulo
1.237 jogos, 131 gols, 18 títulos e três quadros no Guinness. A história do goleiro que passou 25 anos no São Paulo, do quarto reserva aos 17 anos à despedida de 2015 no Morumbi lotado — com os recordes, os jogos que ninguém esquece e o que os outros goleiros diziam dele.
Poucos jogadores no mundo tiveram uma relação tão longa e tão exclusiva com um único clube quanto Rogério Ceni teve com o São Paulo. Foram 25 anos de casa, 1.237 jogos e uma façanha que parecia piada quando começou: um goleiro que, de tanto bater falta e pênalti, terminou a carreira com 131 gols. Ceni foi mais que um goleiro-artilheiro — foi capitão, líder, o nome que o torcedor tricolor escolheria sem pensar duas vezes se lhe pedissem para resumir o clube em uma pessoa.
Do quarto goleiro ao dono da camisa 1
A história começou longe do Morumbi. Ceni foi revelado pelo Sinop, no Mato Grosso, onde estreou em 15 de abril de 1990, contra o Cáceres. Em 7 de setembro daquele mesmo ano, aos 17 anos, foi contratado pelo São Paulo — como quarto goleiro do elenco. Não havia atalho: ele treinou, esperou e se espelhou em Zetti, o dono da posição.
A estreia como profissional veio em 25 de junho de 1993, num torneio em Santiago de Compostela, contra o Tenerife. Zetti estava com a seleção brasileira, a chance apareceu, e o jovem de 20 anos defendeu um pênalti na vitória por 4 a 1. A titularidade definitiva, porém, demorou: Ceni só assumiu de vez a posição em 1997, depois da saída de Zetti — e foi naquele ano, em 15 de fevereiro, que fez seu primeiro gol, contra a União São João, pelo Campeonato Paulista. A partir dali, a carreira de goleiro e a de cobrador de bola parada caminharam juntas por quase 20 anos.
Os recordes que entraram para o Guinness
Os números de Ceni ainda parecem de videogame. O Guinness Book reconheceu marcas como o maior número de gols de falta por um goleiro, o maior número de gols de pênalti por um goleiro, o maior número de gols na carreira por um goleiro, o maior número de jogos por um mesmo clube e o maior número de jogos como capitão de um mesmo time. A ultrapassagem do paraguaio José Luis Chilavert como maior goleiro-artilheiro da história aconteceu em 20 de agosto de 2006, num jogo contra o Cruzeiro que merece capítulo à parte, mais abaixo.
| Marca | Número |
|---|---|
| Jogos pelo São Paulo | 1.237 |
| Gols como goleiro | 131 |
| Gols de pênalti | 69 |
| Gols de falta | 61 |
| Gols de bola rolando | 1 |
| Gols na temporada de 2005 | 21 |
| Tempo no clube | 25 anos (1990 a 2015) |
| Tipo de gol | Quantidade | Parte do total |
|---|---|---|
| Pênalti | 69 | 53% |
| Falta | 61 | 47% |
| Bola rolando | 1 | menos de 1% |
| Total | 131 | 100% |
- 1997: 3
- 1998: 3
- 1999: 5
- 2000: 8
- 2001: 2
- 2002: 5
- 2003: 2
- 2004: 5
- 2005: 21
- 2006: 16
- 2007: 10
- 2008: 5
- 2009: 2
- 2010: 8
- 2011: 8
- 2012: 4
- 2013: 6
- 2014: 10
- 2015: 8
O dado que mais impressiona é a origem dos gols: mais da metade (69) veio de pênalti e 61 de falta. Só um saiu de bola rolando. O gráfico mostra a curva: três gols em 1997, o ano do primeiro gol, e um salto a partir de 2005, a temporada mais produtiva da carreira, com 21 gols — artilheiro do São Paulo no ano, um goleiro no topo da lista de gols do próprio time. Em 2006 vieram mais 16, e ele ainda chegou aos dois dígitos em 2007 e 2014.
A lista imensa de títulos
Ceni conquistou 18 títulos oficiais com a camisa tricolor, entre taças continentais, mundial e nacionais. Dois deles definem a era: a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2005, e o tricampeonato brasileiro consecutivo de 2006, 2007 e 2008.
| Competição | Anos |
|---|---|
| Copa Libertadores | 1993 e 2005 |
| Mundial de Clubes da FIFA | 2005 |
| Copa Intercontinental | 1993 |
| Supercopa Libertadores | 1993 |
| Recopa Sul-Americana | 1993 e 1994 |
| Copa Conmebol | 1994 |
| Copa Master da Conmebol | 1996 |
| Campeonato Brasileiro | 2006, 2007 e 2008 |
| Copa Sul-Americana | 2012 |
| Campeonato Paulista | 1998, 2000 e 2005 |
| Torneio Rio-São Paulo | 2001 |
| Supercampeonato Paulista | 2002 |
Jogos que ninguém esquece
Final do Mundial de 2005: São Paulo 1 x 0 Liverpool
Em 18 de dezembro de 2005, em Yokohama, o São Paulo enfrentou o Liverpool, campeão europeu, na final do Mundial de Clubes. Mineiro fez o gol da vitória por 1 a 0, mas quem segurou o placar foi Ceni, com defesas contra Luis García, Gerrard, Hyypiä, Kewell, Morientes e Sinama Pongolle. Numa das mais lembradas, a falta cobrada por Gerrard desviou em Luis García e o goleiro ainda alcançou a bola. Ceni foi escolhido o melhor jogador da final e do torneio, e levou a Bola de Ouro da Adidas.
"Ao ouvir o apito do argentino Horácio Elizondo, senti que poderia morrer em paz."
— Rogério Ceni, no livro "Maioridade Penal", sobre a final da Libertadores de 2005
Cruzeiro 2 x 2 São Paulo, 2006: um pênalti defendido e dois gols
No Mineirão, em 20 de agosto de 2006, pelo Brasileirão, o São Paulo perdia por 2 a 0. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Ceni defendeu o pênalti cobrado por Wagner — sem a defesa, o Cruzeiro abriria 3 a 0. No segundo tempo, ele mesmo foi à bola: converteu uma falta e um pênalti e arrancou o empate. Com os gols, ultrapassou Chilavert, que tinha 62, e se tornou o goleiro com mais gols da história do futebol. Num só jogo: um pênalti pego, dois gols e um recorde mundial.
Universidad Católica 3 x 4 São Paulo, 2013: a noite das defesas
Em 23 de outubro de 2013, em Santiago, pelas oitavas da Copa Sul-Americana, o São Paulo — campeão do ano anterior — tinha o 1 a 1 da ida e precisava avançar. O jogo começou numa loucura: quatro gols em sete minutos. Sosa abriu para a Católica aos 16 minutos, Aloísio empatou aos 18, Cordero virou aos 22 e Aloísio igualou de novo aos 23. Adenilson fez 3 a 2 aos 64, Mirosevic empatou de pênalti aos 70, e Welliton fechou o 4 a 3 aos 85.
O placar maluco só aconteceu porque Ceni, então com 40 anos, segurou o time na própria área: segundo o clube, foram dez bolas defendidas, seis delas verdadeiros milagres. Foi uma das melhores partidas de uma carreira de 23 anos, como descreveu a Conmebol. Também foi a partida que arrancou o elogio mais famoso de um colega de profissão.
"Nunca vi um goleiro agarrar tanto numa partida de futebol."
— Júlio César, ex-goleiro de Flamengo e Inter de Milão, sobre a atuação de Ceni diante da Católica
Longevidade: jogar até os 42
A carreira de Ceni foi um desafio ao relógio. Ele estreou profissionalmente aos 20, assumiu a posição aos 24, estava jogando em alto nível aos 40 — a atuação contra a Católica é prova — e só parou aos 42. Para um goleiro, que costuma ter vida útil maior que a dos jogadores de linha, ainda assim é um caso fora da curva: mais de duas décadas de decisões, viagens, lesões e pressão sem trocar de camisa. Depois, como treinador, ele viria a dirigir vários clubes brasileiros, mas o torcedor tricolor guarda, acima de tudo, a imagem do capitão de luvas e braçadeira.
A despedida: 11 de dezembro de 2015
Ceni se despediu dos gramados em 11 de dezembro de 2015, aos 42 anos, em um jogo comemorativo no Morumbi, diante de cerca de 50 mil torcedores. Os campeões mundiais de 1992 e 1993, com Raí e Zetti — o goleiro de quem ele herdara a titularidade —, enfrentaram os campeões de 2005. Ceni defendeu o time de 2005, que venceu por 5 a 3, e, claro, converteu um pênalti. No telão, o locutor leu a lista de títulos e recordes. Uma saída à altura: com a bola nos pés, decidindo, como sempre.
"É uma lenda."
— Pep Guardiola, ex-jogador e técnico do Manchester City, sobre Rogério Ceni, em 2024
Guardiola foi além das defesas ao falar do brasileiro: citou também os gols que ele marcou como goleiro. Um quarto de século depois de ser contratado como quarto goleiro, aos 17 anos, Ceni deixou o Morumbi como símbolo do clube — dono da camisa 1, da braçadeira e de uma marca que dificilmente alguém vai alcançar.
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