
Sócrates: o Doutor que jogou de calcanhar e mudou o Corinthians para sempre
Médico, capitão da seleção de 1982, ídolo do Corinthians e líder da Democracia Corintiana. O perfil de Sócrates, o craque que fez 172 gols pelo Timão, encantou o mundo na Copa de 82 e provou que futebol também podia ser política.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nasceu em Belém, em 19 de fevereiro de 1954, e virou o Doutor — porque, de fato, era médico. Formou-se em medicina na USP de Ribeirão Preto, em 1977, enquanto jogava profissionalmente, e fez do campo o lugar onde a inteligência aparecia: passes de calcanhar, visão de jogo de maestro, a elegância de quem parecia nunca correr. No Corinthians, foi mais que ídolo: liderou um movimento que misturou futebol e democracia, na ditadura. Este é o perfil de um craque que ficou maior que a própria bola.
Do Botafogo-SP ao clássico mais caro do Brasil
A ida para o Corinthians não foi simples. O São Paulo também corria por fora pelo médico-camisa 10 do Botafogo-SP, e um jornalista ajudou o Timão a fechar a negociação antes do rival. Fechado o acordo, a diretoria corintiana tornou Sócrates, à época, o jogador mais caro da história do futebol brasileiro.
A estreia veio em 20 de agosto de 1978, num clássico contra o Santos no Morumbi, com mais de 117 mil pessoas nas arquibancadas. Pita abriu o placar para o time da Baixada Santista; Rui Rei empatou minutos depois, e o jogo ficou 1 a 1. Começava ali uma passagem que duraria até 1984 e viraria sinônimo de Corinthians.
Os números do Doutor
| Equipe | Período | Gols |
|---|---|---|
| Botafogo-SP | 1973–1978 e 1989 | 75 |
| Corinthians | 1978–1984 | 172 |
| Fiorentina (Itália) | 1984–1985 | 8 |
| Flamengo | 1986–1987 | 3 |
| Santos | 1988–1989 | 12 |
| Seleção brasileira (60 jogos) | 1979–1986 | 22 |
- 1974: 12 gols
- 1975: 7 gols
- 1976: 20 gols
- 1977: 26 gols
- 1978: 21 gols
- 1979: 21 gols
- 1980: 29 gols
- 1981: 23 gols
- 1982: 24 gols
- 1983: 36 gols
- 1984: 7 gols
- 84/85: 8 gols
- 1986: 3 gols
- 1987: 0 gols
- 1988: 7 gols
- 1989: 5 gols
O gráfico mostra a escalada do jovem do Botafogo-SP até o auge no Corinthians, com o pico em 1983, ano do bicampeonato paulista. Depois vêm a ida para a Itália, a passagem rápida pelo Flamengo e a volta ao futebol paulista, no Santos e no Botafogo-SP, onde fechou a carreira de profissional.
Os títulos e os prêmios
| Competição | Anos |
|---|---|
| Campeonato Paulista (Corinthians) | 1979, 1982 e 1983 |
| Melhor Jogador da América do Sul | 1983 |
| Seleção do Mundo da revista World Soccer | 1982, 1983 e 1984 |
| Seleção dos 100 da Fifa | 2004 |
| Hall da Fama do Museu do Futebol | 2008 |
Democracia Corintiana: ganhar ou perder, mas sempre com democracia
No início dos anos 1980, em plena ditadura militar, um grupo de jogadores do Corinthians — Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon — propôs algo que parecia impossível: que o elenco decidisse, por voto, assuntos do clube, de horários de concentração a contratações. Nasceu a Democracia Corintiana. O time entrou em campo com a palavra "Democracia" estampada na camisa e, no fim de 1983, levantou o título paulista com a faixa que virou lema: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia".
As Diretas Já, em 1984
Em 16 de abril de 1984, Sócrates subiu ao palanque do comício das Diretas Já, em São Paulo, diante de cerca de dois milhões de pessoas, e prometeu: se a emenda das eleições diretas não fosse aprovada, ele deixaria o país para jogar na Itália. A emenda foi derrubada e Sócrates cumpriu a promessa — foi para a Fiorentina. Poucos jogadores arriscaram tanto pela política.
"Jogando bola, é difícil descrever tamanha classe e categoria. A inteligência extrapolou os campos de futebol."
— Zico, sobre Sócrates
Pela seleção: a Copa de 1982
Sócrates vestiu a camisa do Brasil entre 1979 e 1986 e foi capitão do meio-campo de 1982, ao lado de Zico, Falcão e Cerezo — a seleção que encantou o mundo sem ganhar a taça. É esse time que a memória do torcedor guarda como o maior "futebol-arte" da história.
| Copa | Gols de Sócrates | O que ficou |
|---|---|---|
| 1982 (Espanha) | 2 | Capitão de um meio-campo lendário. Empatou o jogo contra a União Soviética, de fora da área, e o contra a Itália, no Sarriá, onde o Brasil acabou eliminado por 3 a 2. |
| 1986 (México) | 2 | Marcou contra a Espanha e de pênalti contra a Polônia (4 a 0). Nas quartas, contra a França, cobrou um pênalti na disputa e o goleiro Bats defendeu; o Brasil foi eliminado. |
Itália 3 x 2 Brasil, em 1982
Em 5 de julho de 1982, no estádio de Sarriá, em Barcelona, o Brasil precisava só de um empate para ir à semifinal. A Itália abriu o placar aos cinco minutos, com Paolo Rossi, e Sócrates empatou aos doze. Rossi fez mais dois — três no total — e a Itália venceu por 3 a 2. A derrota é lembrada até hoje como a que "mitificou" aquele time: perdeu o jogo, mas ganhou a eternidade.
"Sócrates é gênio. Eu sou o complemento do gênio."
— Casagrande, ex-companheiro de Corinthians, sobre Sócrates
Médico, comentarista e uma última partida inesperada
Depois do futebol, Sócrates exerceu a medicina em Ribeirão Preto, escreveu colunas sobre política, economia e esporte e atuou como comentarista de televisão. Em 2004, aos 50 anos, ainda entrou em campo pelo Garforth Town, clube inglês de divisões inferiores, e jogou uma partida como substituto — uma despedida improvável para um craque que sempre fez do futebol mais um jeito de viver do que uma profissão.
Sócrates morreu em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos, em São Paulo. Para os corintianos, o Doutor segue sendo o jogador que provou que um time podia ser uma democracia — e que uma camisa, quando vestida com convicção, podia valer mais do que um título.
O busto no Parque São Jorge
O carinho do clube por Sócrates também ficou em bronze. Ele é um dos únicos seis jogadores da história do Corinthians homenageados com busto no Parque São Jorge, sede do clube — um símbolo reservado a poucos ídolos e prova de que o status de Doutor foi muito além da bola.
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