
Zico: 508 gols pelo Flamengo, o Mundial de 81 e o brasileiro que ensinou o Japão a jogar
508 gols pelo Flamengo, quatro títulos brasileiros, a Libertadores e o Mundial de 1981, três Copas do Mundo e uma segunda carreira que mudou o futebol japonês. O perfil do Galinho, o maior ídolo da história rubro-negra — dos recordes à carreira depois dos gramados.
Arthur Antunes Coimbra nasceu no Rio de Janeiro em 3 de março de 1953 e virou Zico — o Galinho, o camisa 10, o homem que, para uma geração inteira de rubro-negros, é simplesmente o maior jogador que o Flamengo já teve. Meia ofensivo de técnica rara, batedor de falta como poucos e artilheiro de verdade, ele fez do clube da Gávea um campeão continental e mundial e, depois, levou o seu futebol para o outro lado do mundo, onde ajudou a transformar o esporte num fenômeno profissional. Este é o perfil de uma carreira que cabe em poucas páginas, mas não cabe na estatística.
Os números do Galinho no Flamengo
Zico defendeu o Flamengo em duas passagens: de 1971 a 1983 e de 1985 a 1989, com a temporada na Udinese, da Itália, no meio. A média é de 0,69 gol por partida em cerca de 730 jogos, a maior marca da história do clube. Num meia, que nunca foi centroavante, é uma marca quase absurda. O Maracanã resume a relação dele com o estádio: 334 gols, o maior artilheiro da história do templo carioca.
| Equipe | Período | Gols |
|---|---|---|
| Flamengo | 1971–1983 e 1985–1989 | 508 |
| Udinese (Itália) | 1983–1985 | 30 |
| Sumitomo Metal / Kashima Antlers (Japão) | 1991–1994 | 56 |
| Seleção brasileira (71 jogos oficiais) | 1976–1989 | 48 |
- 1971: 2 gols
- 1972: 0 gols
- 1973: 8 gols
- 1974: 31 gols
- 1975: 40 gols
- 1976: 32 gols
- 1977: 37 gols
- 1978: 19 gols
- 1979: 65 gols
- 1980: 35 gols
- 1981: 39 gols
- 1982: 44 gols
- 1983: 20 gols
- 83/84: 24 gols
- 1985: 9 gols
- 1986: 3 gols
- 1987: 6 gols
- 1988: 4 gols
- 1989: 7 gols
- 1991: 11 gols
- 1992: 28 gols
- 1993: 12 gols
- 1994: 5 gols
O gráfico mostra a escalada até o auge, em 1979, e os anos de ouro do Flamengo, de 1980 a 1982, quando o time ganhou tudo. A produção cai nos anos finais, mas Zico ainda fez história no Japão. O recorte de assistências é mais difícil: o futebol dos anos 1970 e 1980 não tinha o registro sistemático de hoje, e é na memória dos jogos grandes, como o Mundial, que a veia de armador aparece com clareza.
Os títulos: Brasileirão, Libertadores e Mundial
No Brasileirão, a era Zico é a primeira grande era nacional do Flamengo. O clube foi campeão brasileiro em 1980, 1982 e 1983 — o último, na final contra o Santos, no Maracanã, com 155.523 pagantes, o maior público pagante registrado numa partida do campeonato — e conta ainda o título de 1987, na Copa União, entre as conquistas nacionais, o que dá quatro. Zico foi o maior artilheiro rubro-negro na competição e levou a artilharia de 1982, com 21 gols.
| Competição | Anos |
|---|---|
| Copa Libertadores | 1981 |
| Copa Intercontinental (Mundial) | 1981 |
| Campeonato Brasileiro | 1980, 1982, 1983 e 1987 (Copa União) |
| Campeonato Carioca | 1972, 1974, 1978, 1979 (duas edições) e 1981 |
1981: o ano em que o Flamengo foi do mundo
Libertadores: a final contra o Cobreloa
A Libertadores de 1981 foi a primeira da história do Flamengo — e Zico foi o artilheiro do torneio, com 11 gols. Na fase de grupos, o time venceu duas vezes e empatou quatro, sem perder, com 14 gols marcados e 9 sofridos. Na final, contra o Cobreloa, do Chile, a decisão precisou de três jogos: 2 a 1 no Maracanã em 13 de novembro, derrota por 1 a 0 em Santiago em 20 de novembro e o jogo-desempate em Montevidéu, no Estádio Centenário, em 23 de novembro. Flamengo 2 a 0, título conquistado. Zico fez dois gols no primeiro jogo e dois no terceiro — quatro dos seis gols do Flamengo na decisão.
Mundial: Flamengo 3 x 0 Liverpool
Em 13 de dezembro de 1981, no Estádio Nacional de Tóquio, diante de 62 mil pessoas, o Flamengo enfrentou o Liverpool, campeão europeu, e deu um show. Nunes abriu o placar aos 12 minutos, num passe de Zico. Adílio ampliou aos 34, aproveitando o rebote de uma finalização do camisa 10. Nunes fechou o 3 a 0 aos 41. Zico não marcou, mas foi eleito o melhor em campo. O técnico Carpegiani explicou o desenho: o craque jogou um pouco mais recuado do que o habitual e, mesmo sem marcar, foi quem mais machucou o adversário.
"Eu queria ver como ele reagiria a um desafio físico, mas não consegui chegar perto o bastante para descobrir."
— Graeme Souness, meio-campista do Liverpool, sobre Zico na final de 1981 (tradução livre)
O time conquistou três taças em 21 dias, e a temporada de 1981 é, para a torcida, a mais icônica da história do clube.
Pela seleção: três Copas, nenhuma taça
Zico vestiu a camisa amarela entre 1976 e 1989 e disputou três Copas do Mundo. Em nenhuma delas levantou a taça — o que o transformou, ao lado de outros craques de sua geração, no maior jogador brasileiro a nunca ser campeão do mundo. A conta de gols em Copas é curta, mas conta a história de cada edição.
| Copa | Gols de Zico | O que ficou |
|---|---|---|
| 1978 (Argentina) | 1 | Terceiro lugar. Gol de pênalti contra o Peru; na estreia, contra a Suécia, o árbitro apitou o fim com a bola no ar após um escanteio, anulando um gol seu. |
| 1982 (Espanha) | 4 | Titular em todos os jogos. Gol de falta contra a Escócia, dois na Nova Zelândia (4 a 0) e um na Argentina. Time encantador, eliminado pela Itália. |
| 1986 (México) | 0 | Única Copa sem gol. Pênalti perdido contra a França no tempo normal, nas quartas; a França avançou nos pênaltis. |
"Um diretor de jogos. Deram para ele a 10 de Pelé, e ele a vestiu sem problemas. Tinha a liderança dos grandes."
— Diego Maradona, sobre Zico
O brasileiro que ajudou a construir o futebol japonês
Depois de deixar o Flamengo e a Itália, Zico foi para a política: foi Secretário Nacional de Esportes entre 1990 e 1991, no governo Collor, e é dessa época a Lei Zico, que começou a derrubar o regime de passe que prendia o jogador ao clube. Foi quando, em 1991, aos 38 anos, recebeu a proposta da Sumitomo Metal Industries, empresa que mantinha um time amador no Japão e que mais tarde se tornaria o Kashima Antlers. Zico aceitou voltar a jogar, no que era então um campeonato corporativo.
A mudança foi histórica. Em 16 de maio de 1993, na estreia do clube na recém-criada J.League, ele marcou três gols numa vitória por 5 a 0 sobre o Nagoya Grampus Eight — o primeiro hat-trick da liga profissional. O clube foi o primeiro vencedor de um turno na história do campeonato, e Zico encerrou a carreira de jogador em 1994. Ele permaneceu como diretor técnico do Kashima, de 1996 a 2002, e voltaria ao cargo em 2018. O estádio do clube tem até uma estátua dele. Para o Japão, Zico virou sinônimo de profissionalismo e de jogar sempre para vencer.
Depois dos gramados: técnico, dirigente, comentarista
A segunda carreira de Zico foi tão longa quanto a primeira. Esteve na comissão técnica de Zagallo na Copa de 1998 e, entre 2002 e 2006, comandou a seleção japonesa: foram 64 jogos, com 36 vitórias, 13 empates e 15 derrotas, o título da Copa da Ásia de 2004 e a participação na Copa de 2006, na Alemanha. Nela, o Japão perdeu por 4 a 1 do Brasil — o único duelo entre os dois países em Copas — e caiu na fase de grupos.
| Período | Função |
|---|---|
| 1990–1991 | Secretário Nacional de Esportes (Lei Zico) |
| 1996–2002 | Diretor técnico do Kashima Antlers |
| 2002–2006 | Técnico da seleção do Japão (Copa da Ásia 2004 e Copa de 2006) |
| 2006–2008 | Técnico do Fenerbahçe (Turquia) |
| 2008–2009 | Técnico do Bunyodkor (Uzbequistão) |
| 2009 | Técnico do CSKA Moscou (Rússia) |
| 2009–2010 | Técnico do Olympiacos (Grécia) |
| 2010 | Diretor executivo de futebol do Flamengo |
| 2011–2012 | Técnico da seleção do Iraque |
| 2013–2014 | Técnico do Al-Gharafa (Catar) |
| 2014–2016 | Técnico do FC Goa (Índia) |
| Desde 2018 | Diretor técnico do Kashima Antlers |
Pelo caminho, ainda foi comentarista de TV e de rádio. O mapa de clubes e países acima mostra um profissional que nunca parou — e que, onde chegou, deixou a mesma marca: bola no chão, ataque organizado e respeito pela técnica. Quem quiser entender por que o Flamengo é o Flamengo de hoje precisa passar pelo Galinho; quem quiser entender por que o Japão joga futebol como joga, também.
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