Estátua de Zico em exposição na Gávea, no Rio de Janeiro
Lendas

Zico: 508 gols pelo Flamengo, o Mundial de 81 e o brasileiro que ensinou o Japão a jogar

508 gols pelo Flamengo, quatro títulos brasileiros, a Libertadores e o Mundial de 1981, três Copas do Mundo e uma segunda carreira que mudou o futebol japonês. O perfil do Galinho, o maior ídolo da história rubro-negra — dos recordes à carreira depois dos gramados.

Por Redação Guribol · 02 de outubro de 2026 · 9 min de leitura
Editado por Victor Sismotto

Arthur Antunes Coimbra nasceu no Rio de Janeiro em 3 de março de 1953 e virou Zico — o Galinho, o camisa 10, o homem que, para uma geração inteira de rubro-negros, é simplesmente o maior jogador que o Flamengo já teve. Meia ofensivo de técnica rara, batedor de falta como poucos e artilheiro de verdade, ele fez do clube da Gávea um campeão continental e mundial e, depois, levou o seu futebol para o outro lado do mundo, onde ajudou a transformar o esporte num fenômeno profissional. Este é o perfil de uma carreira que cabe em poucas páginas, mas não cabe na estatística.

Os números do Galinho no Flamengo

Zico defendeu o Flamengo em duas passagens: de 1971 a 1983 e de 1985 a 1989, com a temporada na Udinese, da Itália, no meio. A média é de 0,69 gol por partida em cerca de 730 jogos, a maior marca da história do clube. Num meia, que nunca foi centroavante, é uma marca quase absurda. O Maracanã resume a relação dele com o estádio: 334 gols, o maior artilheiro da história do templo carioca.

EquipePeríodoGols
Flamengo1971–1983 e 1985–1989508
Udinese (Itália)1983–198530
Sumitomo Metal / Kashima Antlers (Japão)1991–199456
Seleção brasileira (71 jogos oficiais)1976–198948
Zico equipe a equipe
2 gols19710 gols19728 gols197331 gols197440 gols197532 gols197637 gols197719 gols197865 gols197935 gols198039 gols198144 gols198220 gols198324 gols83/849 gols19853 gols19866 gols19874 gols19887 gols198911 gols199128 gols199212 gols19935 gols1994
  • 1971: 2 gols
  • 1972: 0 gols
  • 1973: 8 gols
  • 1974: 31 gols
  • 1975: 40 gols
  • 1976: 32 gols
  • 1977: 37 gols
  • 1978: 19 gols
  • 1979: 65 gols
  • 1980: 35 gols
  • 1981: 39 gols
  • 1982: 44 gols
  • 1983: 20 gols
  • 83/84: 24 gols
  • 1985: 9 gols
  • 1986: 3 gols
  • 1987: 6 gols
  • 1988: 4 gols
  • 1989: 7 gols
  • 1991: 11 gols
  • 1992: 28 gols
  • 1993: 12 gols
  • 1994: 5 gols
Gols de Zico pelos clubes por ano, em partidas oficiais registradas (a temporada 1983/84 é a da Udinese); o total do Flamengo, de 508, considera mais jogos

O gráfico mostra a escalada até o auge, em 1979, e os anos de ouro do Flamengo, de 1980 a 1982, quando o time ganhou tudo. A produção cai nos anos finais, mas Zico ainda fez história no Japão. O recorte de assistências é mais difícil: o futebol dos anos 1970 e 1980 não tinha o registro sistemático de hoje, e é na memória dos jogos grandes, como o Mundial, que a veia de armador aparece com clareza.

Os títulos: Brasileirão, Libertadores e Mundial

No Brasileirão, a era Zico é a primeira grande era nacional do Flamengo. O clube foi campeão brasileiro em 1980, 1982 e 1983 — o último, na final contra o Santos, no Maracanã, com 155.523 pagantes, o maior público pagante registrado numa partida do campeonato — e conta ainda o título de 1987, na Copa União, entre as conquistas nacionais, o que dá quatro. Zico foi o maior artilheiro rubro-negro na competição e levou a artilharia de 1982, com 21 gols.

CompetiçãoAnos
Copa Libertadores1981
Copa Intercontinental (Mundial)1981
Campeonato Brasileiro1980, 1982, 1983 e 1987 (Copa União)
Campeonato Carioca1972, 1974, 1978, 1979 (duas edições) e 1981
Principais títulos de Zico pelo Flamengo

1981: o ano em que o Flamengo foi do mundo

Libertadores: a final contra o Cobreloa

A Libertadores de 1981 foi a primeira da história do Flamengo — e Zico foi o artilheiro do torneio, com 11 gols. Na fase de grupos, o time venceu duas vezes e empatou quatro, sem perder, com 14 gols marcados e 9 sofridos. Na final, contra o Cobreloa, do Chile, a decisão precisou de três jogos: 2 a 1 no Maracanã em 13 de novembro, derrota por 1 a 0 em Santiago em 20 de novembro e o jogo-desempate em Montevidéu, no Estádio Centenário, em 23 de novembro. Flamengo 2 a 0, título conquistado. Zico fez dois gols no primeiro jogo e dois no terceiro — quatro dos seis gols do Flamengo na decisão.

Mundial: Flamengo 3 x 0 Liverpool

Em 13 de dezembro de 1981, no Estádio Nacional de Tóquio, diante de 62 mil pessoas, o Flamengo enfrentou o Liverpool, campeão europeu, e deu um show. Nunes abriu o placar aos 12 minutos, num passe de Zico. Adílio ampliou aos 34, aproveitando o rebote de uma finalização do camisa 10. Nunes fechou o 3 a 0 aos 41. Zico não marcou, mas foi eleito o melhor em campo. O técnico Carpegiani explicou o desenho: o craque jogou um pouco mais recuado do que o habitual e, mesmo sem marcar, foi quem mais machucou o adversário.

"Eu queria ver como ele reagiria a um desafio físico, mas não consegui chegar perto o bastante para descobrir."

— Graeme Souness, meio-campista do Liverpool, sobre Zico na final de 1981 (tradução livre)

O time conquistou três taças em 21 dias, e a temporada de 1981 é, para a torcida, a mais icônica da história do clube.

Pela seleção: três Copas, nenhuma taça

Zico vestiu a camisa amarela entre 1976 e 1989 e disputou três Copas do Mundo. Em nenhuma delas levantou a taça — o que o transformou, ao lado de outros craques de sua geração, no maior jogador brasileiro a nunca ser campeão do mundo. A conta de gols em Copas é curta, mas conta a história de cada edição.

CopaGols de ZicoO que ficou
1978 (Argentina)1Terceiro lugar. Gol de pênalti contra o Peru; na estreia, contra a Suécia, o árbitro apitou o fim com a bola no ar após um escanteio, anulando um gol seu.
1982 (Espanha)4Titular em todos os jogos. Gol de falta contra a Escócia, dois na Nova Zelândia (4 a 0) e um na Argentina. Time encantador, eliminado pela Itália.
1986 (México)0Única Copa sem gol. Pênalti perdido contra a França no tempo normal, nas quartas; a França avançou nos pênaltis.
Zico nas Copas do Mundo

"Um diretor de jogos. Deram para ele a 10 de Pelé, e ele a vestiu sem problemas. Tinha a liderança dos grandes."

— Diego Maradona, sobre Zico

O brasileiro que ajudou a construir o futebol japonês

Depois de deixar o Flamengo e a Itália, Zico foi para a política: foi Secretário Nacional de Esportes entre 1990 e 1991, no governo Collor, e é dessa época a Lei Zico, que começou a derrubar o regime de passe que prendia o jogador ao clube. Foi quando, em 1991, aos 38 anos, recebeu a proposta da Sumitomo Metal Industries, empresa que mantinha um time amador no Japão e que mais tarde se tornaria o Kashima Antlers. Zico aceitou voltar a jogar, no que era então um campeonato corporativo.

A mudança foi histórica. Em 16 de maio de 1993, na estreia do clube na recém-criada J.League, ele marcou três gols numa vitória por 5 a 0 sobre o Nagoya Grampus Eight — o primeiro hat-trick da liga profissional. O clube foi o primeiro vencedor de um turno na história do campeonato, e Zico encerrou a carreira de jogador em 1994. Ele permaneceu como diretor técnico do Kashima, de 1996 a 2002, e voltaria ao cargo em 2018. O estádio do clube tem até uma estátua dele. Para o Japão, Zico virou sinônimo de profissionalismo e de jogar sempre para vencer.

Depois dos gramados: técnico, dirigente, comentarista

A segunda carreira de Zico foi tão longa quanto a primeira. Esteve na comissão técnica de Zagallo na Copa de 1998 e, entre 2002 e 2006, comandou a seleção japonesa: foram 64 jogos, com 36 vitórias, 13 empates e 15 derrotas, o título da Copa da Ásia de 2004 e a participação na Copa de 2006, na Alemanha. Nela, o Japão perdeu por 4 a 1 do Brasil — o único duelo entre os dois países em Copas — e caiu na fase de grupos.

PeríodoFunção
1990–1991Secretário Nacional de Esportes (Lei Zico)
1996–2002Diretor técnico do Kashima Antlers
2002–2006Técnico da seleção do Japão (Copa da Ásia 2004 e Copa de 2006)
2006–2008Técnico do Fenerbahçe (Turquia)
2008–2009Técnico do Bunyodkor (Uzbequistão)
2009Técnico do CSKA Moscou (Rússia)
2009–2010Técnico do Olympiacos (Grécia)
2010Diretor executivo de futebol do Flamengo
2011–2012Técnico da seleção do Iraque
2013–2014Técnico do Al-Gharafa (Catar)
2014–2016Técnico do FC Goa (Índia)
Desde 2018Diretor técnico do Kashima Antlers
A carreira de Zico depois de jogar

Pelo caminho, ainda foi comentarista de TV e de rádio. O mapa de clubes e países acima mostra um profissional que nunca parou — e que, onde chegou, deixou a mesma marca: bola no chão, ataque organizado e respeito pela técnica. Quem quiser entender por que o Flamengo é o Flamengo de hoje precisa passar pelo Galinho; quem quiser entender por que o Japão joga futebol como joga, também.

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